Ludicidade na Formação de Educadores

 

Daniela Gomes é formada em Letras, mestre em Educação pela Universidade Federal da Bahia, especialista em Educação Lúdica em ambientes educacionais e corporativos pelo ISE Vera Cruz – SP e entusiasta pela Ludicidade, área em que a levou a empreender, criando a Transludus, empresa baiana de atuação em desenvolvimento lúdico e criativo para diversos profissionais. Em entrevista ao nosso portal, Daniela contou um pouco sobre a relação da Ludicidade na vida humana e o seu valor na formação de educadores. Confiram

 

01) Muita gente associa o lúdico ao processo de desenvolvimento das crianças. Qual o valor da ludicidade na vida humana em suas diversas fases?

Em nosso modelo de sociedade atual é mais fácil perceber a manifestação do lúdico na infância do que no universo adulto. A criança de certa forma se permite aflorar seu estado lúdico, que é natural do ser humano, pois inicialmente não se encontra totalmente envolvida por padrões culturais mais antigos que conceituavam, por exemplo, o brincar como oposto a trabalhar, advindo este de um momento histórico pós-revolução industrial. Hoje pesquisas indicam que o brincar e o trabalhar não são categorias opostas e sim complementares. Mas levado ao dia-a-dia, até sua influência sobre as crianças depende em muito de como os adultos hoje reconhecem, se permitem vivenciar e valorizar esse potencial humano: a ludicidade.

Considero a ludicidade, em acordo também com importantes autores da área como C. Luckesi, H.Maturana, S. Brown, M. Csikszentmihalyi, dentre outros, como um potencial de plenitude, de inteireza, de entrega, de integração de nossas diversas dimensões humanas, que podemos manifestar em qualquer momento e atuação nossa, gerando bem-estar e desenvolvimento pessoal, profissional e social.

Na criança, o lúdico se manifesta principalmente através do brincar, sendo essa sua principal linguagem. É através dessa linguagem que a criança se relaciona com o mundo. Já o jovem, por exemplo, contata seu potencial lúdico de outra forma. Ele vai percebendo que é possível desenvolver seu potencial criativo e é possível expressar aquilo que lhe dá prazer e contentamento. Enquanto que na fase adulta reconhecer a importância desse estado lúdico frente ao corre-corre da vida se torna o maior desafio. Por isso que o contrário do não brincar no mundo adulto é a depressão, a tristeza, a falta de ânimo das pessoas no desenvolvimento do seu trabalho. Nesse sentido, a ludicidade está ligada a um estado de bem-estar que irá reverberar na saúde, nas relações sociais, profissionais e na qualidade de vida do ser humano.

02) Como que a ludicidade associada a educação pode contribuir no processo de ensino-aprendizagem?

Acredito que uma das grandes contribuições da valorização e inclusão da ludicidade na educação, hoje, é que ao entrar em contato com o próprio potencial e estado lúdico, passa-se por um processo de autoconhecimento, já que através do contato com o lúdico todas as nossas dimensões são ativadas e integradas: física, mental, emocional, espiritual. Isso se reflete nas relações com o outro, proporcionando trocas de aprendizagem de si, do outro, do mundo, de forma muito mais plena e consciente. Certamente isso se reflete no desenvolvimento humano de uma criança, pois aí esta vai tecer junto aos demais atores da educação uma aprendizagem muito mais orgânica, envolvida no processo, crítica e perceptiva, autônoma, entrando em maior contato com seu potencial criativo na expansão de sua visão de mundo e atuação no mesmo.

03) O que consiste um curso de formação lúdica para professores?

Primeiramente, é importante dar-se conta das concepções de ludicidade que estão envolvidas nesse curso. Uma das concepções que eu particularmente abraço é que a ludicidade é um estado interno do ser humano de auto-entrega e inteireza, um potencial que pode ser expresso e compartilhado externamente. A meu ver um curso de formação lúdica, para quaisquer profissionais e aqui educadores, deve envolver de forma muito aprofundada o contato desse educador com suas próprias concepções trazidas acerca do fenômeno lúdico, de outras fontes diversas, do contato com seu próprio estado lúdico e da experimentação desse potencial em sua atuação profissional, o que envolve o ser, o fazer, o sentir, o interagir e o arriscar sempre o novo em experimentos, como uma natural conseqüência desse investimento: o desenvolvimento da expressão lúdico-criativa desse profissional tão essencial na formação humana.

04) Qual a importância dessa formação para atuação profissional dos docentes?

Os docentes atuantes no mercado em geral compartilham inúmeros desafios que a profissão enfrenta num país que ainda não reconhece o verdadeiro valor da educação para o desenvolvimento de uma nação. Nesse contexto, uma formação lúdico-criativa propicia um convite aos educadores a uma atuação mais criativa, prazerosa, mais plena de sentidos e por isso mais encorajadora e fortalecedora, inclusive para lidar com os desafios advindos da profissão. Educadores com uma formação lúdica nos termos aqui mencionados normalmente expressam mais vontade de inovar em sua atuação diária, de arriscar novos padrões de ensino-aprendizagem mesmo dentro do sistema, de atuar de forma colaborativa na implementação de projetos diferenciados, de nutrir seu potencial criativo o que o nutre também como pessoa e profissional. Na pesquisa que realizei no mestrado em educação na Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia-UFBA, pude confirmar a importância da formação lúdica nos termos aqui apresentados, na formação inicial de professores e sua atuação. Uma formação lúdica pode trazer ao educador o contato consigo mesmo e sua auto-percepção como um ser e um profissional co-criador de novas realidades.

05) Quais pontos são necessários para ser criativo na profissão?

A criatividade é um potencial humano e altamente conectado ao potencial lúdico. O que ocorre é que nós criamos padrões educacionais que podem tanto enfraquecer quanto fortalecer esse potencial trazido conosco. Creio que a criatividade ainda é uma ciência a ser melhor explorada na educação. E para que um adulto possa expandir esse potencial criativo alguns pontos são essenciais. O primeiro ponto é reconhecer e lidar com as próprias barreiras e resistências internas que foram criadas ao longo de sua trajetória pessoal, educacional, profissional, social. Algumas delas são, por exemplo, o medo de errar, a timidez, o medo de julgamentos. Outro ponto é começar a desenvolver o ousar. Arriscar mais nas ações e compartilhar com outras pessoas. Por último, acredito que é estar sempre se renovando e nunca se acomodar. Buscar sempre esse novo a partir de suas próprias experiências e trocas.

06) Quais cursos dentro dessa perspectiva são desenvolvidos hoje em Salvador?

Dentro da perspectiva aqui partilhada, posso afirmar que a Transludus – Ludicidade e Desenvolvimento Criativo foi criada para trazer essa proposta a Salvador e à Bahia. Hoje nós temos o primeiro curso de pós-graduação em Ludicidade e Desenvolvimento Criativo de Pessoas para profissionais de diversas áreas, incluindo, portanto, os educadores. Também oferecemos cursos livres e de extensão, voltados ao desenvolvimento lúdico-criativo de pessoas, sejam profissionais, estudantes, ou qualquer pessoa interessada em investir nesse potencial. Os resultados práticos compartilhados até então pela primeira turma da pós-graduação nos diz que estamos no caminho certo.

07) Além da proposta de uma formação lúdica, há outros fatores que seriam necessários para promover a plena formação dos professores?

Bem, considerando a complexidade que envolve qualquer formação humana hoje e assim profissional também, diversos fatores são importantes e requerem um diálogo, uma dança interativa. Assim, prefiro dizer que creio imprescindível hoje na formação de professores uma visão, pesquisa e atuação transdisciplinar, como um caminho mais amplo de desenvolvimento humano em termos pessoal e coletivo. Uma re-educação de nosso olhar para a realidade, que por si só é complexa e que pode ser inovada por nós seres humanos, profissionais, cada um contribuindo para novos padrões mais criativos, mais justos, mais harmônicos de sociedade. A transdisciplinariedade, que reconhece diferentes níveis de existência, abrange uma lógica mais inclusiva de convivência e reconhece a complexidade da vida, envolve uma atuação humana em prol do re-descobrimento da humanidade em nós e por conta disso é um manancial de novos caminhos na educação, partindo aí da formação de seu profissional mais direto: o professor, o educador, aquele que media o aprender a ser-conviver-fazer-conhecer, como bem destacou Delors e eu acrescentaria o transcender.

03/06/2013 | Categoria: Entrevistas | Comentários: nenhum

 

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