Educação Inclusiva

 

Especialista em psicopedagogia, doutoranda e mestre em educação pela Universidade Federal da Bahia, Maria Lúcia, desenvolve um trabalho desde 2003 na classe hospitalar, uma modalidade de ensino pouco conhecida e que segundo a mesma pode ser considerada como um singelo modelo de inclusão. Em Entrevista ao nosso portal, a professora e pesquisadora em educação especial também compartilhou conosco um pouco de sua experiência e perspectivas futuras sobre a prática da educação inclusiva nas escolas.

01) O que é a classe hospitalar?

A classe hospitalar é uma modalidade de atendimento pedagógico prestado à criança e ao adolescente hospitalizado e/ou em tratamento de saúde, que acredita que esses jovens pacientes, uma vez afastados da vida escolar e privados da vida social, permanecem prejudicados em sua escolarização e alguns até em estado de analfabetismo. Acredita-se também que, além de contribuir para a continuidade da vida escolar, contribui para o resgate da saúde e melhor qualidade de vida deles.

02) Qual a importância do lúdico na educação de crianças portadoras de necessidades especiais?

Percebo que ao brincar as crianças podem explorar o espaço ao qual estão inseridas. Também observo que podem melhorar sua agilidade física, experimentar seus sentidos, e desenvolver seu pensamento. O contexto lúdico pode se realizar sozinho, ou, na companhia de outras crianças, desenvolvendo também o comportamento em grupo e o respeito às regras. Sendo assim, aprendem a conhecer e a respeitar a si próprios, e aos demais.

03) Como os brinquedos pedagógicos e as atividades lúdicas podem auxiliar na educação inclusiva?

Brincar é caracterizado pelos signos do prazer, da alegria e do sorriso. Esse processo traz inúmeros efeitos positivos aos aspectos cognitivo, afetivo, corporal e social. Ousaria aqui dizer que brincar para criança é vida para ela. As situações de brincadeiras possibilitam, também, o encontro com seus pares, fazendo com que interajam socialmente, em qualquer espaço. No grupo descobrem que não são os únicos sujeitos da ação, e que para alcançar seus objetivos precisam levar em conta o fato de que outros também têm objetivos próprios que querem satisfazer. Por meio de brinquedos e brincadeiras a criança tem a oportunidade de desenvolver um canal de comunicação, uma abertura para o diálogo com o mundo dos adultos, onde ela estabelece seu controle interior, sua autoestima e desenvolve relações de confiança consigo mesma e com os outros. Ao brincar a criança lida com sua realidade interior e faz uma tradução livre da realidade exterior por ela vivenciada. Permitir à criança espaço para brincar, proporcionando-lhe interações que vêm, realmente, ao encontro do que ela é, aliado às nossas tentativas no sentido de compreendê-la, efetivamente, nestas atividades, é dar-lhes mostras de respeito.

04) A escola está preparada para incluir?

Entendo a Educação Especial na perspectiva de uma modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para educandos com necessidades especiais. Quando necessário haverá serviços de apoio especializado na escola regular; entretanto, será feito o atendimento educacional fora das classes comuns de ensino regular se pelas condições específicas do aluno for impossível a sua integração (Artigo 58, parágrafo 1º e 2º da LDBEN n. 9.394/1996). A educação especial deve assegurar resposta educativa de qualidade às necessidades educacionais especiais. Todo e qualquer aluno pode apresentar ao longo de sua aprendizagem, alguma necessidade educacional especial, temporária ou permanente (Parecer CNE/CEB n. 17/2001, MEC/SEESP, 2004, p. 337-8).

Já a Educação inclusiva é a educação para todos, voltada à diversidade que é inseparável da natureza da espécie humana, sejam quais forem suas diferenças e seus estilos de aprender. Para isso, são necessárias mudanças na formação dos educadores, na estrutura e no funcionamento das escolas.

Desse modo, para responder sua questão, penso que muitas mudanças precisam ser feitas e não somente a escola precisa estar preparada para incluir, mas a sociedade como um todo precisa aprender a incluir. Precisa-se tomar cuidado na questão de acreditar que somente a escola e os professores precisam estar preparados. Penso na escola como um contexto maior com os professores, os valores desses professores, os alunos e as famílias desses alunos, suas crenças e valores, a coordenação, a direção da escola, as pessoas da limpeza, a comunidade onde a escola está inserida, entre outros.

05) Quais aspectos destacaria em termos de mudanças no cotidiano da escola e mais especificamente da sala de aula em uma proposta de educação inclusiva?

Como disse acredito que a inclusão encontra-se em uma esfera bem maior do que a problemática da sala de aula. Na verdade o trabalho precisa abranger não somente os alunos, mas suas famílias e todos os funcionários da escola. Precisa-se antes de tudo as pessoas saberem respeitar as diferenças uma das outras. Afinal de contas todos somos diferentes. Não basta o professor trabalhar em sala com textos e atividades que valorize e fale sobre as diferenças se a postura desse professor é ser intolerante com as diferenças. Penso que trabalhar com a Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva vai além de conteúdos didáticos, a questão é a postura e os valores morais das pessoas de modo a respeitarem suas diferenças e as dos outros.

06) Quais os limites e as possibilidades que apontaria, hoje, no caso da escola pública brasileira?

Um dos limites: salas lotadas. Também não sei te dizer se é a falta de formação de professores ou se os professores que não estão interessados em realizar cursos de atualização e aperfeiçoamento, ou se são as duas coisas. Os professores muitas vezes sentem-se angustiados por não terem apoio da coordenação e direção escolar. Algumas famílias demonstram ser intolerantes com as diferenças, então a escola procura desenvolver um trabalho que valorize as diferenças, mas a família continua a ser intolerante e isso é bem complicado. O oposto também acontece, a família tem um discurso que valoriza as diferenças, mas na prática não aceita as diferenças e critica a escola. Lembro-me de uma situação que aconteceu comigo em 2003, quando ministrava aulas em uma turma de 2ª série do Ensino Fundamental, em uma escola privada no interior do estado de São Paulo. A escola trazia a proposta da Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva e um dos meus alunos tinha encefalopatia crônica (paralisia cerebral), usava uma cadeira de rodas para se locomover e precisava do auxílio de lupa para conseguir ler suas atividades, o que muitas vezes exigia que eu precisasse auxiliá-lo mais frequentemente do que os outros alunos. Porém, um dos alunos da sala não aceitava essa situação e começou a demonstrar um comportamento agressivo para expressar sua insatisfação, criticava-me o tempo todo enquanto professora, desvalorizava as conquistas do aluno com encefalopatia crônica, entre outros. Quando chamamos a família para conversar sobre as reações e comportamento do aluno a família criticou e disse que o filho estava muito preconceituoso e que a escola que deveria fazer alguma coisa para resolver. O mais interessante na entrevista com essa família foi que percebemos o quanto eles eram preconceituosos e que o comportamento deles acabava por influenciar o comportamento do filho. Mas, para eles era a escola que não estava sabendo lidar. Como era uma escola privada, tanto a família como o aluno foram orientados pela coordenadora pedagógica a procurarem um profissional para ajudá-los nesse sentido. O que aconteceu? A família mudou de escola e o aluno continuou a ter os mesmos problemas, ou seja, não respeitava as diferenças e nem sei se respeita até hoje…

Entre as possibilidades acredito que uma formação de qualidade para os professores e não me refiro à Universidade, pois eu nem tive aulas de Educação Especial quando me formei. Não sabia quem eram Piaget, Wallon, Vigotiski, ou Paulo Freire, eu enquanto professora busquei minha formação, corri atrás do prejuízo. Penso que falta isso para a sociedade como um todo. Vontade de correr atrás e aprender. Não se pode esperar as coisas chegarem de mãos beijadas.

07) Qual formação seria adequada para que os educadores exerçam práticas de educação inclusiva?

A formação é querer se formar. É querer correr atrás. É fazer o que gosta.

20/05/2012 | Categoria: Entrevistas | Comentários: 1

 

Comentários:

  1. Rafael says:
    23 de outubro de 2012 às 10:11

    Muito boa entrevista.

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